Desafio da Serra da Jiboia 13 - Serra Ameaçada

"Memória é nossa capacidade de esquecermos as coisas." Mariante Moscardini.


No último dia 13 de maio seguimos eu, Orlando e Elson para uma jornada na Serra da Jibóia, no semi árido baiano, próxima às cidades de Elísio Medrado, Castro Alves, Santo Antônio de Jesus e Santa Terezinha. A subida monumental seria uma aventura de quase 2300 metros acumulados, em pouco mais de 70 quilômetros. No sábado, 14, às 7h30 já rodávamos a 21 graus. A Serra se mostrava semi encoberta, havia chovido há mais de três dias e o clima estava perfeito para o mtb, com tempo nublado e o solo firme, sem poeira. Havia tanto Minas ali que me perguntava se essa formação geológica não seria um "puxadinho" do famoso Maciço do Espinhaço, a única cadeia montanhosa brasileira, que começa em Ouro Branco e se encerra mais de 2000km depois, em Sento Sé, às margens da Barragem de Sobradinho, outra intervenção que desintegra o Rio São Francisco. 

A primeira etapa começa de fato numa pequena cachoeira, infelizmente tomada de lixo aqui e acolá. Feitas as fotos de praxe do Mural, seguimos por um belo single track em meio a um resto de Mata Atlântica. Elsão tentou "zerar" um trecho uma, duas, cinco vezes, mas o dia foi da montanha.  Logo depois viria outra lembrança das cercanias mineiras onde costumava rodar, essa, no entanto, mais funesta. Pouco depois do cruzamento das placas que antigamente indicavam "Velozes e Furiosos" e "Pôneis Malditos", vieram as motos de trilha a nos aterrorizar, forçando paradas repentinas e alguma apreensão. Apesar disso, o caminho seguia cada vez mais bonito, como se eu novamente estivesse nos paredões do primeiro dia de Iron Biker no quadrilátero ferrífero mineiro, onde só se sobe na base do "empurra bike". Um afloramento de rocha após um longo single track foi a primeira parada para admiração da paisagem, com o silêncio rompido pelas motos treieiras ao longe. Tio Elson apontava as quedas de água para nos refrescarmos e o caminho ficava mais divertido, como se isso fosse difícil em meio a tantas ladeiras, trechos de pedra e um frio agradável. O caminho termina abruptamente numa plantação que avança sobre a mata. Passamos então por Monte Cruzeiro, com sua igreja interditada encimada por pináculos, antes de chegarmos a Pedra Branca, paramos no restaurante da Rita que tinha uáifai. A comida foi extremamente adequada ao esforço gasto até ali: arroz, feijão com bacon, ovos cozidos e um levíssimo pratão de fígado com tomate. Elsão ficou com frango a passarinha e Orlando com os ovos cozidos. Bom, sai dali com o estômago meio zureta para a segunda parte da aventura, a escalada das antenas de Santa Terezinha, sob um sol forte. Ao passo que atrasava o grupo, me recordava tanto das Serras da Cruz do Monte e da Onça, lá nos fundos de Pitangui, com seu silêncio mais que necessário. Era uma estrada de manutenção, não havia tantas valas ou pedras no caminho, cruzamos com um único veículo, um ônibus da Universidade Federal do Recôncavo Baiano. E uma cachoeira à esquerda da subida, quase no cume, nos daria um alívio antes de completarmos a ascensão dos quase 750 metros.
Lá nas nuvens avistávamos cidades próximas no lado nascente e os inselbergues, ou "ilhas terrestres"de Santa Terezinha ao fundo, no poente. Essa vista, por si só, compensa os riscos e o suor pra se alcançá-la.
Então veio a parte mais bacana do trajeto, a descida da serra sobre as pedras e numa trilha fantástica em meio à mata ainda fechada. O encanto mudou para preocupação quando vi o estrago causado pelas motos, com valas que podem ser transpostas apenas pelos mais habilidosos, areia em profusão, talvez um resultado da lixiviação, ou o processo de "lavagem" ou erosão do solo, que também ataca severamente as serras brasileiras tomadas por essa praga chamada "motos de trilha". O caminho por ora se transforma numa imensa vala, impedindo a pedalada.  Já cansado de travar os freios, pegamos uma via alternativa usada pelos treieiros, num grau de inclinação basicamente assustador. Como deve ser fácil obter a capacidade de encarar uma via dessas morro acima com apenas o girar do punho. A facilidade vem acompanhada só de rejeitos para os demais viventes, mas não seria este o conceito brasileiro de "progresso"?
David Ghetta X Nick Cave
Eram quase seis horas quando voltamos à Tabuleiro do Castro, distrito de Castro Alves onde vestimos as lanternas e seguimos para o retorno à fazenda da sogra de Elson. Ainda enfrentaríamos a ladeira do "arromba batata" antes de pegarmos uma estradinha que se encerrava na fazenda. Lá, por volta das 20h30, Elson faria um churrasco generoso e sua sogra nos presentearia com um pavê de ameixa, combinação perfeita para as quase 13h de pedal. O DJ Ghetta nos embalava ao fundo para que não espatifássemos o rosto sobre os pratos, tamanho cansaço, mas eu só pensava no músico australiano com sua voz lúgubre. Logo, alguns besouros rola bosta vieram nos perturbar. Sossegadamente gritei, "sai pra lá, bolsonazi". Depois me considerei injusto para com o inseto que, ao contrário do deputado sem projeto, tem alguma função ecológica.
Dormi como um jazigo e acordamos com  a Serra da Jibóia tomada por nuvens e chuva. À saída da sede Orlando mais uma vez mostrou seus dotes de domador amansando um bode rebelde, como o personagem de George Clooney em "Os homens que encaravam cabras".
A visão da Serra enevoada era como um quadro do que anteriormente acontecera há pouco no congresso nacional: era como se tivéssemos que encará-la à noite, sem lanternas e infestada por ladrões. Mas a natureza nos havia dado outra sorte. O pais, não sei. 
Parti de lá com a certeza de que a subida da Jibóia é uma aposta. Das mais bonitas e interessantes que já fiz, provavelmente a mais próxima do que já vivi nos estados do Sudeste. Recomendo com todas as forças.

Resumo: Distância, 71km, tempo 12h30, com paradas para almoço e contemplação, 2300 metros de subida acumulada, perfil de single tracks escorregadios, descidas sobre rochas e estradões íngremes. Neylor Bahia
CLIQUE NAS IMAGENS PARA AMPLIAR






































































































4 comentários:

Neylor disse...

A altitude correta do ponto onde as antenas se erguem é de 780 metros.

Willyam Rocha disse...

Parabéns Mineiro, depois do seu depoimento fiquei com mais vontade de conhecer essa aventura, com certeza estarei na próxima edição....

Rogério Fernandes disse...

Parabéns pela resenha (excepcional vocação literária!) e pela superação deste desafio! Esta aventura ainda é um sonho de consumo para mim e depois desta resenha só aumentou ainda mais a vontade. Parabéns a todos!

Plech disse...

Bela resenha Mineiro! A Jibóia é realmente a trilha que todo muralista deve mirar em realizar, não só pelo desafio da altímetria, mas também pela diversidade de terrenos. Principalmente para aqueles que pensam em um dia realizar o que tem de melhor no Mural de Aventuras, a participação de uma EXPEDIÇÃO DO MURAL. Portanto, vale a dica para aqueles que querem se aventurar na Expedição Titicaca na Bolívia-Perú façam a próxima Jiba de 03/09 que certamente é um bom treino físico e psicológico.
BMMP